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O sonho impossível


Muitas sonham com aquele vestido. Eu mesma já sonhei. A porta de madeira, a melodia simples e serena, o dia apressado, o medo, o passo entrando, os olhos me olhando, as flores nas minhas mãos, o véu arrastando no chão... e, finalmente, meu pai entregando minha mão ao meu esposo.

Muitas sonham com o dia do casamento, mas ele, na maioria das vezes, não passa disso. Um sonho. Um sonho impossível. Meu pai não é um pai de verdade e nós dois juntos somos tão estranhos um com o outro como qualquer estranho que se aproxime. Talvez, mais estranhos do que isso, afinal muita história por trás nos lembra quem realmente somos e o que fizemos com as pessoas que amávamos.

Meu noivo está lá, ao lado do padre, me esperando. Lágrimas descem dos meus olhos, mas é de felicidade. Aquele momento é perfeito e único. O único momento perfeito do casamento, na verdade. Depois disso, as brigas, as raivas, os problemas, os defeitos e os excessos estragam, corroem e nos prendem, e o casamento se torna um peso e os esposos começam a se odiar ou, o que é pior, um deles passa a rejeitar o outro. E o outro passa a ser descartável.

Sou descartável e resolvi não arriscar. Não quero sentir o que minha mãe sentiu, o sofrimento que vi, a falta de cor em seu rosto, a secura em seus lábios, o vermelho de seus olhos. Não colocarei para tocar uma música que sei que me trará sofrimento e dor. Por isso, se alguma vez me perguntarem, eu escolhi não casar e o motivo é esse. Resolvi não sonhar esse sonho. Morarei junto, dividirei a vida e a casa, mas jamais esse sonho de entrar na igreja de braço dado com meu meio-pai para ver o meu esposo no final da trilha. Esse sonho não é mais meu, e tentar dividi-lo com alguém seria como dividir zero por dois. E o resultado disso será sempre zero.

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