5 de março de 2016

Porque a hora da raiva é agora



Eu moro entre quatro sons. O som da esquerda é brega, o da direita é forró, o de trás é TRAAA-ZUUUMMM-RIIIIIIIIN! e o outro, pouco afastado, é sertanejo. E estudo para tentar entrar para um curso de medicina. Estou entre os cálculos matemáticos - que eu com certeza abomino -, ou entre as fórmulas estranhas de física, lendo um bom texto de português ou entendendo o corpo humano (biologia, matéria preferida). E, de repente...

"Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva..."

Começo a curtir o som do vizinho. Presto atenção no som e até na letra, acho bonita, normal talvez. Mas tudo bem, não faz mal aos ouvidos. Quando Newton fala em ação e reação, volta de novo. "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva...". E eu presto atenção, desvio meus pensamentos um pouco e volto para a matéria, tento me concentrar. Consigo! Não, consigo! 

TRAAA-ZUUUMMM-RIIIIIIIIN! É domingo e o pessoal da oficina (atrás) ainda está trabalhando! Acordo às seis, eles acordam às cinco. Deito ao meio-dia, eles trabalham ao meio-dia. Será que eles são aqueles tão famosos concorrentes de que falam aquelas frases de inspiração aos vestibulandos "Seu concorrente não está brincando, não está vagabundando, não está dormindo!"? É, presumo que sim. Concorremos pelo silêncio. No meu caso, sempre perco. Até nos domingos.

Na segunda-feira, novamente. "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva...". Começo a me estressar. Meu concorrente não está escutando sertanejo, então também não posso estar. O que fazer? Fecho todas as portas e janelas e ligo o ventilador. Ainda consigo escutar "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva...", mas dessa vez num volume mais adequado e, mesmo assim ainda incomoda. O que antes eu via como algo legal, agora não me ajuda. E o pior: eu moro no sertão da Paraíba! Quando fecho tudo e ligo o ventilador, parece que esse trouxe o calor do mundo inteiro para um só quarto. O sol ainda bate na minha parede e fico sem ar. Quase que literalmente sem ar, porque fica muito abafado e o suor escorre bastante. O que fazer? Mudar de lugar.

Mudo de lugar, mas "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva..." ainda continua forte. Meu Deus, o que eu faço? E quando junta o brega, o forró, o sertanejo e o TRAAA-ZUUUMMM-RIIIIIIIIN!, tudo de uma só vez? O jeito é se adaptar. 

Mesmo assim, não consigo deixar de dizer: A HORA DA RAIVA É AGORA. E, se eu for continuar ouvindo a música mesmo, ao invés de estudar, vou concordar com o restante da letra:

"Naquele segundo /Eu pensei que até te odiava/ Mas respirei fundo (...)"

E, ao respirar fundo, percebi o que?
Que a raiva ainda estava ali. 

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