2 de março de 2016

Eu, Imposto



Sou famoso. Não preciso que o sol comece a brilhar para que o meu brilho apareça. Sou o único que consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo, contemplando a triste expressão do povo brasileiro e sua rotina tediosa – salvo às vezes em que acontece uma adrenalina ou outra, uma confusão daqui, um barraco dali... Isso as vezes me diverte, me dá pena, me deixa até triste! Mas então lembro que não me importo e continuo a vagar por aí, sem rumo certo.

Tem dias em que sou mais valorizado, que rendo mais, de igual para igual com o comércio, principalmente em época festiva. Todo mundo gosta de me produzir e quanto mais compram, mais eu rendo, principalmente em época de natal. É todo mundo procurando jantar e presente e me doam como presente. Gostam muito disso, na verdade. É por isso que sou famoso. Muita gente me produz, mas sou mandado por poucos, por luxuosos, vestidos de terno, é claro. Não mereço algo menos do que isso. Eles são quem me dão um rumo certo na vida, e sou muito grato!

Já quem me produz todos os dias – o chamado "povão" – queria me levar para outros lugares, conhecer grandes hospitais, transformar pequenas escolas em grandes, fazer obras de caridade. Queria usufruir o meu tão precioso tempo, a minha boa vontade, a minha falta do que fazer. Mas eu prefiro ficar entre os grandes, entre as piscinas luminosas, os colchões relaxantes, a bebida e os casarões. Gosto do meu lugar nos bancos, obrigado. Gosto de sentir o cheiro do prazer, da luxúria, da exclusividade e, principalmente, do perigo. O gosto do errado e a malícia me arrepiam por completo, me deixam mais exuberante, elevam o meu ego. 

O que o "povão" tem para me oferecer além da pobreza de que compartilham e da sua falta de tempo? Se não podem me dar carinho, luxo e prazer, não me queiram. Não me queiram para si, isso é egoísmo. Vocês só têm o prazer de estar comigo quando me produzem, fazendo suas compras de todos os dias. Sei que sou exigente, que exploro vocês de vez em quando – às vezes quase sempre... Mas isso não é uma democracia e eu prefiro os meus chefes de terno. 

Bem, vou continuar sendo o que sou: famoso, exclusivo. Porém, não queiram saber da minha vida, nem para onde eu vou, porque isso não é problema de vocês. Ou melhor, é problema sim, mas deixem isso pra lá e vão curtir suas festas, cervejas, mulheres e futebol. Eu não quero sair de onde estou.

Não me vejam mal, mas sou puro interesse. Fui educado para ser.

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