24 de setembro de 2014

Mas todo mundo tá na rua...



Lá pelas tantas da noite, minha mãe me chamava aos gritos "Menina! Venha simbora que já ta tarde!" E lá se via eu, suada, sem a cabeça do dedo do pé, os cabelos mais bagunçados do que os brinquedos na cama, correndo para chegar logo na mamãe e pedir "Mamãe! Mas todo mundo ta na rua! Deixe eu brincar mais!" e ela dizia só mais um pouco. E assim, eu voltava pra rua, as crianças das redondezas todas unidas, jogando rouba-bandeira que na verdade era "roba-bandeira", garrafão, jogava bola (mais chutando as canelas do que a própria bola), bila etc. 

Terminava o dia, a garganta doía de tando gritar "Aqui aqui aqui!!" e a mãe mandava ir tomar banho. Meu Deus! Era horrível! Cansada e toda dolorida da correria e eu ainda tinha que tomar banho?! Onde já se viu? Mamãe, não vou. Ah vai sim. Naaaaaam!! Isso não existe, não tem pra quê. Bom, tudo bem. Eu tinha que ir, era obediente, embora fosse totalmente contra a minha vontade. E começa a arder, a feridinha que na hora nem sentia! E para limpar a cabeça do dedo que nem já estava mais lá? Pega uma barra de sabão que ainda não foi usada e passa na ferida! Meu Deus, que tipo de dor era aquela? Isso porque não conhecia as dores que viriam quando crescesse. 

Chegava a hora de dormir e adormecia na hora, pedia a benção da mãe e rezava pro Pai e pronto! Não existe época mais feliz! Hora de estudar? Vá fazer as lições de casa! Depois você brinca. E lá ia eu, fazer tudo pra juntar a turma de novo e viver tudo de novo e se arranhar todinha e se sujar e... sorrir! Eu tinha mais amigos do que muita criança hoje tem, mesmo com todas as suas redes sociais. Minhas redes naquela época eram outras! Era só pedir alguém para balançar ela lá no alto e soltar depois e se sentir livre! "Menina! Tu cai daí!" O quê mamãe? Não dá pra ouvir! Agora é minha vez! E assim ia...

Quem não gosta da infância? E como me ensinava... Era o jogo em que eu aprendia sobre perder e ganhar, era nas equipes que eu aprendia a ajudar o outro, era nas defesas e ataques que eu aprendia sobre estratégias. E quem não brinca? Ou não pode brincar? E como é importante a brincadeira! 
E lá ia eu, de noite brincar na rua com toda a redondeza de criança! 

"Menina! Venha simbora que já ta tarde!"

Mas todo mundo ta na rua... 

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